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16 de novembro de 2009

 

Eu não gosto de você







Aproveitar minha falta de assunto pra tentar criar uma série sobre tipos de pessoas que eu não gosto. Na verdade eu não gosto de quase ninguém, mas tem gente que se destaca mais, e é sobre isso que quero falar. Por exemplo, hoje vou comentar sobre pessoas que acreditam em alienígenas.

Eu verdadeiramente não tenho mais paciência para ufologia. Assim como a religião, isso é uma doença típica de gente ignorante, mas que pode chegar a atacar até pessoas cultas em alguns casos.

O primeiro que me chama a atenção em relatos de pessoas que viram ETs é o fato de que esses seres levam RG próprio do seu planeta. Está lá escrito Sr. Extraterreste Almeida Carvalho, filho de Dona ETenéia Almeida dos Santos com Sr. Alienígena Borges Carvalho. Se não for assim, como que uma pessoa que se depara a uma criatura desconhecida tem a certeza que ela veio de outro planeta? Não pode ser um bicho deformado? Uma experiência genética? Um animal erroneamente taxado como extinto? Você é biólogo, por acaso pra conhecer toda a fauna da Terra? A mesma coisa acontece com as aparições de OVNIs, qualquer luz diferente no céu é um OVNI. Não é avião, nem balão, nem satélite, nem cometa ...o sujeito sabe de astronomia e aviação tanto quanto eu sei de alcaparras, mas afirma com toda autoridade que o que ele viu é uma nave pilotada por um alienigena. Todas as possibilidades mais cabíveis são descartadas pra dar veracidade ao relato, isso é uma constante em toda suposta experiência com UFOs.


Um exemplo claro do que eu falei acima é um conhecido blogueiro bastante inteligente, mas que tem esse fascinio irracional por ETs. Outro dia no blog dele o sujeito comentava de um caso exposto num jornal em que um homem foi dormir e acordou misteriosamente no topo de uma pequena montanha sem saber como foi parar ali. Obviamente, como tudo que tem uma explicação racional complicada, essa lacuna é preenchida com espíritos ou alienígenas, nesse caso ficou com a segunda opção. Pra galera UFO esse era um caso claro de abdução. Reparem que os ETs são uma espécie de João Kléber, eles abduzem o cara da casa dele e recolocam num topo de uma montanha só pra ver a reação do malaco quando acordar, é tipo uma pegadinha, em algum planeta distante está um João Kléber versão intergalática dando risadas da cara do pobre rapaz. Ou alguém vê alguma razão lógica para um ET te tirar de casa e voltar a colocar num lugar remoto alguns instantes depois?

Eis que alguns céticos tentaram utilizar a caixa de comentários do rapaz pra alertar sobre outras possiveis explicações para o fato. Sonambulismo, por exemplo. A resposta foi essa: "Realmente, depois da abdução, o sonambulismo é a hipótese mais plausível". Claro, a abdução não está nem entre as 200 melhores hipóteses, eu poderia plantear que um elefante veio nadando da África até o Brasil, foi andando inadvertidamente até a casa do suposto abduzido, o agarrou com a tromba, colocou nas costas, subiu a pequena montanha, baixou o jeca ali e voltou pra África. E queiram ou não, essa hipótese é mais plausível que abdução do ET João Kléber já que ela possui várias evidências: a existência comprovada de elefantes que sabem nadar, vivem na África e agarram pessoas com a tromba, já as evidênicas a favor dos ETs são nulas.

Outro dia eu discutia com um amigo que queria me convencer que Barack Obama possuía um ET (de estimação provavelmente). Eu, gentilmente, com todo carinho, como se explicasse a uma velhinha ignorante pra caralho criada toda a vida em Itacarapapicetinga do Leste numa casa iluminada a querosene, contei sobre o número aproximado de planetas existentes e a distância entre eles, fiz um cálculo meio arbitrário entre esse número e a probabilidade de que vida surja em algum planeta só para termos uma idéia de quantos planetas aproximadamente são habitados por algum organismo por mais primitivo que seja, logo peguei esse número e fiz outro cálculo arbitrário para saber quantos desses planetas habitados possuiriam seres dotados de consciência, e o resultado foi 2 (e me pareceu otimista) sendo que um tinha que ser o nosso, senão não estaríamos discutindo aquilo.

Logo expliquei sobre a idade geológica da Terra que é de uns 4 bilhões de anos e que o homo sapiens sapiens está aqui há uns 100 000 anos, ou seja, um pequeno detalhe na história desse planeta e que ainda que os ETs escolhessem visitar a Terra podendo escolher entre outros 100 trilhões de planetas, eles poderiam ter aparecido aqui há dois bilhões de anos atrás e terem ido embora sem encontrar nada de interessante, já que a Terra por essa época era mais entediante que Cuiabá numa segunda-feira às 3 da tarde.

Pra terminar, falei que ainda que fossemos visitados por algum alien, ele nunca teria a forma descrita nos relatos de supostos avistamentos de ETs, onde vemos criaturas quase humanas com dois braços, duas pernas, dois olhos, um nariz, uma boca ... Expliquei que um ser que evoluiu em outro planeta, outro ambiente, outros elementos químicos, outros predadores e outras presas jamais evoluiria para a forma humana, que nós somos assim não porque papai do céus nos fez assim, e sim porque foi a melhor forma encontrada para a nossa sobrevivência através de todo um processo chamado seleção natural que ele deveria conhecer porque não era uma velhinha do sertão numa casa iluminada por querosene. Depois de todo meu gentil esforço, o qual imaginei que era bem vindo, eis que o iletrado me pergunta:

- Ok, agora vamos supor que tudo isso que você me falou é falso. O que temos então?

Nesse caso o que temos é um completo ignorante, praticamente um bovino. Temos a certeza de tempo perdido tentando explicar Teoria da Evolução a um rinoceronte. Deu a impressão que eu bebi demais e não reparei o momento em que trocaram meu interlocutor por um quadrúpede. Se para satisfazer a sua hipótese temos que ir em contra de toda a ciência conhecida, então ela é falsa. Toda a ciência do mundo não está errada só para você estar certo, aceite esse fato.

Essa foi minha última experiência frustante com um adorador de ETs, e a definitiva para incluir essa raça na minha lista. Gosta de Aliens? Cara de Milho te despreza.





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4 de novembro de 2009

 

4 anos sem tirar




Pouca gente sabe (na verdade, só eu sei), mas Cara de Milho completa hoje 4 anos no ar. Infelizmente não conservo a mesma detrminação dos primeiros meses, que me levava a postar até três posts num único dia, mas é que certas prioridades foram aparecendo no curso desses anos. Ainda assim, não houve um único dia que me arrependesse de ter criado El Hombre Maíz, mais ainda quando lembro das pessoas que conheci através dele.

Devido a certa crise criativa, isso é tudo que posso escrever hoje. Amo vocês, até aqueles evangélicos que entram no post do Tio Chico e me condenam ao fogo eterno. Amo, amo muito.

29 de outubro de 2009

 

Diálogos




Se São Tomé tivesse um pintinho



- Então você não acredita em Deus?

- Não.

- E se ele aparecesse pra você?

- Buscaria um psiquiatra.

- E se o psiquiatra dissesse que você não estava louco.

- Então o louco era eu e o psiquiatra.

- Mas e se ele realmente provasse que era Deus. Tipo dizendo coisas sobre você que só você pode saber.

- Ah, então seria uma prova cabal que era um produto da minha cabeça. Por outro lado, se ele dissesse coisas que eu nunca soube seria impossível ser gerado pela minha mente, logo eu poderia, por exemplo, pedir que ele cante Meu pintinho amarelinho em sueco, euskera, hebraico, mandarim e javanês. Como eu não conheço nenhuma palavra nesses idiomas seria impossível eu projetar uma ilusão que falasse tais línguas. Depois iria buscar pessoas que falassem esses idiomas e repetisse o que o suposto Deus teria cantado, caso a tradução fosse realmente "Meu pintinho amarelinho cabe aqui na minha mão...", ficaria provado pelo menos momentaneamente que aquele Deus não era fruto de minha imaginação, mas ainda assim eu ia considerar outras possibilidades.

- Ou seja, que o criador do universo tá na tua frente e não te ocorre nada melhor que pedir que ele cante Meu pintinho amarelinho em cinco idiomas?

- Ao princípio, sim.

- Ai, quanta blasfêmia!

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21 de outubro de 2009

 

Para ler e cantar



To sabendo aí que o tal de Rafael Polegar voltou a aprontar. Dessa vez foi visto tentando se suicidar com uma faca no pescoço dentro de um elevador, mas foi contido pela PM. Fontes minhas me disponibilizaram o áudio da negociação e eu transcrevo pra vocês:



Rafael, recapacita, cara! Olha o que você tá fazendo! O que sua mãe vai pensar?


- Ela não liga, ela não liga
Ela não liga, Ela não liga pra mim.

Eu sou um carro, ela não guia
Sou um cigarro, ela não fuma
Eu tô na dela, ela tá numa
Eu tô de noite, ela de dia
Eu viro rádio, ela não liga
Eu peço um gesto, ela faz figa
Toco guitarra e bateria, ela só ouve sinfonia.


- Puta merda? Esse verso é seu? (E eu pedindo que ele não se mate, vai entender!)... mas então, Rafael, muito bonita sua letra, dá pra ver que você é um cara talentoso. Dê valor à sua vida! Como você mesmo dizia: Não se deprima! Não se deprima!

- Essa é dos Menudos, e é Reprima.

- Certo, certo! Mas fala, por que você quer fazer isso?

-É que Dizem que estou desmiolado
que perdi minha razão
que eu to batendo pino,nada vê
Dizem que estou alucinado


- Não liga não e vem
Dá pra mim essa faca! Dá pra mim!
Não se preocupe que eu serei um bom rapaz


- Não...

- Dá pra mim, porra!

- Tá nervoso é?

- Não é por nada não, mas é que são duas da manhã eu queria estar com minha família e tenho que estar aqui te convencendo a não se matar.
É por você que eu perco o sono
É por você que eu ando doido
Dá essa faca pra mim ohohoohoyeah!

- ohohyeah?

- Me empolguei.

(soa o rádio do policial)

- A situação tá sob controle?

- Sim, tem horas que ele tropeça nas palavras e começa a gaguejar e fica afo-baba-do se me vê , mas no geral tá tudo ok.

- Tá, se precisar de reforços me avisa.

(rádio desligado)

- Então Rafael, pela última vez:
Dá pra mim essa faca! Dá pra mim
Prometo que vou ser um bom rapaz


- Tá bom, toma.

- ah, ótimo. Desistiu, né? Queria só chamar atenção.

- Não é isso, é que descobri que
sou um lunático apaixonado ou qualquer coisa assim
Sou como sou
Aonde vou eu acho a minha saída
Sou como sou e seguirei a vida é pra ser vivida
Sou como sou e viver é melhor medida
Sou como sou

6 de outubro de 2009

 

Ensaio sobre a falta que um guarda chuva não faz.







Eu nunca contei aqui, mas tenho uma certa aversão aos guarda chuvas. Sempre que comento isso com alguém, me pedem uma explicação lógica, e eu sempre desconverso, digo que simplesmente consigo viver sem eles, mas a verdade é que eu tenho tantos motivos que não saberia escolher o primeiro a comentar, por isso dou essa abreviada no assunto. Só hoje resolvi sentar e enumerar detalhadamente minhas mágoas contra esse ser inanimado.


1 - Não é uma invenção, é uma improvisação.

Pouca gente sabe, mas o guarda chuva nunca foi inventado por ninguém, ele é uma improvisação da sombrinha. Geralmente achamos o contrário, já que hoje em dia quase não vemos ninguém usando sombrinha, mas ela veio primero. As pessoas tomaram chuva sem nenhum problema até dois séculos atrás quando começaram a aparecer os tecidos impermeáveis e alguém teve a idéia de cobrir uma sobrinha com esse tecido. Só o fato de que a chuva existe desde que o mundo é mundo, e que a humanidade até o século XIX cagou e andou para bolar um meio de se defender dela já mostra o quanto esse objeto é inútil.

2 - Falsa sensação de proteção.

O guarda chuva parte da premissa que chove em linha reta, as ruas são planas e o solo absorve a água um milésimo de segundo após entrar em contato com ela. Quando você sai na chuva você pode escorregar no chão molhado, pode pisar em poças d'agua imundas cheias de xixi de rato que te vão trazer leptospirose, escarlatina, ebola e câncer de intestino. Suas calças vão molhar também, e se forem Jeans elas não vão secar e você vai ficar com aquilo molhado no corpo o dia inteiro. Grande parte da sua camisa também molha. O único que fica protegido é a sua cabeça, que é o menos importante, basta secar com uma toalha quando chegar em casa. A pessoa quando usa um guarda chuva está mais propensa a pegar uma gripe porque ao chegar em casa com a cabeça seca transmite a sensação de que o corpo também está, e fica ali com a roupa úmeda no corpo. Já o cara que sai sem guarda chuva e chega em casa encharcado, ele simplesmente bota toda a roupa pra lavar e se seca.


3 - Você realmente não precisa dele

Moro em uma cidade com um dos maiores índices pluviométricos da Europa e vivo feliz sem guarda chuva. Quando a chuva me surpreende no caminho eu simplesmente me meto dentro de algum bar. Se tenho algum compromisso vou me esgueirando pelas marquises. Aliás, uma grande prova da inutilidade dos guarda chuvas é que eu sempre tenho que compartir essas marquises com pessoas equipadas desse objeto horrendo.

nota: Antes de passar pro próximo ponto deixa só eu botar um adendo, já que eu falei de marquises. Pra mim essa é uma das palavras mais bonitas da nossa língua (tá, é um estrangeirismo, mas já está aportuguesada). Além de outro detalhe importante, que provavelmente nunca uma palavra tão bonita foi usada pra algo tão vulgar. Quando eu era pequeno e ouvia essa palavra eu imaginava várias coisas, menos que estivesse relacionado com a construção civil. Destoa tanto como se ao invés de dizer carburador disséssemos champignon.

4 -Você não gosta dele

Não há objeto mais esquecido no mundo do que um guarda chuva. Em todas as cafeterias que trabalhei aqui em La Coruña podíamos fazer uma coleção com os guarda chuvas esquecidos pelos clientes. Dava até pra abrir uma lojinha no E-Bay. Acho impossível que as pessoas façam tão pouco caso a esse objeto se ele tivesse alguma importância.


5 - Vida útil mais curta que a de um hamster.

Faça um teste: compre um guarda chuva, um hamster, um peixinho desses que venda na feira dentro de uma bolsinha plástica e um mini game de 990 jogos de uma lojinha de 1,99. Eu aposto que o guarda chuva bate as botas primeiro. Você obviamente está pensando que eu me refiro àqueles comprados no camelô, mas eu afirmo que todo guarda chuva termina assim:



Nem mesmo se você tiver dinheiro pra cacete e puder pagar mais do que 10 reais num guarda chuvas que vai durar três chuvas você está livre disso. Ou você acha que George Bush compra guarda chuva em camelô? Olha o que aconteceu com o dele:



Detalhe para a cara do Putin. Vladmir Putin te despreza.


6 - Trauma de infância.

Quado eu era criança e tinha que ir pra aula num dia chuvoso, meus pais me faziam levar um guarda chuva. Até aí, nada de muito traumático, o problema era a peça que eles me disponibilizavam. Era um treco colorido, com cabo de madeira, com a tela soltando em vários pontos e que nem sequer tinha aquele botãozinho para abrir automaticamente. Era no braço mesmo, e a maioria das vezes eu prendia o dedo. Eu chegava na escola com aquilo, enquanto meus amigos reluziam seus guarda chuvas negros padronizados e as meninas gabavam-se com seus horrendos, mas pelo menos modernos na época, guarda chuvas brancos com foto da Madonna que estavam totalmente in nos anos 90. Sente a deprê:



Alguns ainda tinham o cabo com desenho de cabeça de ganso. Eu odeio minha geração, sinto muito.
Daí então na escola eu era vítima de bulling por causa desse puto instrumento. Diziam que eu levava o guarda chuva da vovó. Ainda lembro o dia que passei no fliperama depois da aula carregando esse troço e quase fui linchado. Por muito tempo não culpei meus pais por isso porque achei que era por falta de grana, mas quando cresci pro mundo e descobri que um guarda chuva não é muito mais caro que uma caneta bic (e eu já tive várias canetas bic), acho que eles foram desleixados nesse ponto.


Enfim, de todos os motivos supracitados acho que esse último foi o que mais contribuiu para moldear minha personalidade hoje. Prometi a mim mesmo que quando crescesse nunca andaria com guarda chuva e aqui estou feliz e levemente molhado.

28 de agosto de 2009

 

Coisas que socializam





Estava eu na fila do caixa do supermercado, atrás de mim estava uma senhora de idade com seu carrinho mais ou menos cheio, até que apareceu uma outra senhora aparentemente da mesma idade e perguntou se podia passar na frente, já que levava apenas dois pacotes. A senhora do carrinho meio cheio aceitou, porém com uma má vontade impressionante. Ficou ali de cara feia resignada até que a furona da fila comentou que tinha pressa porque tinha hora no médico, e que estava cheia de dores. Pronto, passou a raiva. As duas se animaram e começaram a falar de doenças que padeciam. Quando eu fui embora ainda estava alegremente comentando:

- E artrite? Artrite é terrível!

- Ai, nem me fale! Levo anos tratando a minha! Osteoporose você tem?

- Ô se tenho! E meu marido parece que tá com Alzheimer.

- Ai, Alzheimer é ruim demais. Meu irmão tem...

Tipo, foi então que cheguei à conclusão que há aspectos da vida que são profundamente socializantes, mas devemos estar atentos à faixa etária. Com velhinhas é fácil, falou de doença e já tem assunto pra tarde inteira.

Com pessoas mais jovens, o cigarro é um bom caminho. Por menos altruistas que o sujeito seja, não será com relação ao cigarro. Pode que não dê esmola, pode que não dê comida, mas um cigarrinho ninguém nega, mesmo para um completo desconhecido. Eu tenho um amigo que não fuma, mas usa do altruismo tabagista para paquerar meninas. É só ver uma mulher bonita fumando que vai lá pedir um cigarrinho e enquanto a moça vai catando o maço na bolsa ele vai puxando conversa. Se se aproximasse pedindo qualquer outra coisa a garota torceria o nariz.

Outra coisa socializante: maconha. É impressionante como os maconheiros são unidos. O cara não torce pelo teu time, não vota no teu candidato, não ouve teu tipo de música, no final vocês não tem nada em comum a não ser o fato que ambos são maconheiros, e isso basta pro cidadão te tratar como irmão. Eu sempre defendi que meu fracasso social radica no fato que eu não tomo drogas. Cansei de ver a facilidade que meus amigos que curtem uma marofa fazem novas amizades só puxando um beck. É algo como: "Pô, tu é maconheiro? Eu também sou, chega aí! Tu é parceiro então.." pronto, já estão saindo juntos, já é apresentado a outro grupo, enquanto os caretas vão levando sua vida sedentária.

Mais uma: livros. Saudáveis e socializantes. Criou-se uma mística tão grande em torno ao leitor e que ler é coisa de intelectual, que as pessoas adoram comentar sobre o que estão lendo. Aliás, é meu único refúgio para começar um contato com um desconhecido, mas ainda assim é complicado. Tipo, maconha é maconha, mas há livros e livros; não é o mesmo puxar assunto com um leitora de Dostoievski que com um leitora de Zíbia Gasparetto. Então eu sempre tenho que ir me esgueirando de fininho tentando ler o título na capa do livro até fazer algum comentário que gere uma conversa. Outra desvantagem é que há mais maconheiros e fumantes do que leitores de bons livros. Uma das amigas que eu tenho a conheci assim. Ela ia na cafeteria onde eu trabalhava cada semana com um livro diferente até que um dia puxei assunto e agora além de amiga é conselheira literária.

Outra: camisa de banda. Pessoas acham que só porque você tem o mesmo gosto musical, então é gente boa. Cabe uma ressalva: a probabilidade de alguém vir te cumprimentar por estar vestindo a camisa de uma banda aumenta quanto mais "alternativa" for a mesma. Você com uma camisa do U2 vai cruzar com mil fãs da banda e passar inadvertido. Agora experimenta uma camisa do Tom Zé, que o primeiro que souber pelo menos o nome de três músicas dele vai te dar um abraço. E isso é explicável. Essas pessoas se acham parte de uma minoria seleta (eu me incluo) e oprimida pela música jabá, então quando veem alguém para compartilhar seu gosto por Arrigo Barnabé, Rogério Skylab ou Zumbi do Mato fora do orkut, ficam felizes.

Religião segue a mesma regra da camisa de banda. Só se for minoria. Dois mussulmanos de turbante se cruzam no Brasil e com certeza se aproximam. Já nos Emirados Árabes não acho que ser mussulmano gere tanto assunto. No meu caso é complicado, porque apesar de ser minoria (ateu), não tem nada que identifique ao ateu ao meu lado que compartimos da mesma descrença, talvez uma camisa com a foto de Richard Dawkins, mas é meio brega.

Ou seja, ou começo a fumar maconha socialmente ou terei que me resignar a buscar devoradoras de livros em lanchonetes por toda a vida pra me agrupar. Alguém tem alguma idéia de outros elementos socializantes para sugerir?

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25 de agosto de 2009

 

Follow that corn!






Agora vocês podem acompanhar o Cara de Milho também pelo Twitter:
http://twitter.com/carademilho

 

Fazia tempo que não escrevia uma fábula.






Do tempo que os animais falavam, e tinham RG.

Era uma vez um camelo que nasceu com apenas uma corcova. Não que isso fosse um problema que chamasse muito a atenção, porque para quem o visse passando pela rua, confundia-o rapidamente com um dromedário, mas a verdade é que ele era um camelo. Aliás ele era tão camelo, mas tão camelo que nasceu em Camelot, filho de um camelô com a Dona Camila.

Claro que toda aquela situação gerava certos burburinhos sobre a honra de sua mãe quando seus pais iam buscá-lo na escola e todos viam que ambos eram camelos, mas seu filho, supostamente era um dromedário, mas tais boatos infundados nunca chegaram aos seus ouvidos. Os problemas só começaram mesmo na fase adulta:

- Moço, tem uma coisa errada aqui. Você me deu um RG de dromedário.

- Sim.

- Mas eu sou um camelo.

- Camelos tem duas corcovas.

- Pois, eu sou um camelo com apenas uma corcova.

- Ou seja, um dromedário.

- Nada disso. Um dromedário é um dromedário, um camelo com uma corcova é um camelo com uma corcova.

- Escuta, jovem, facilita minha vida. Eu não tenho tempo para suas crises de identidade. Hoje pela manhã já discuti com uma tartaruga que teimava que era um Jabuti. Eu não posso dar um RG de camelo para um bicho que só tem uma corcova. Pra isso eu precisaria de autorização judicial, e é uma burocracia danada. Tem tanto ganso querendo ser pato, tanto pato querendo ser marreco, tanto jacaré querendo ser crocodilo que o sistema fica sobrecarregado.

Assim que o pobre camelo teve que aceitar seu RG de dromedário enquanto sua petição era encaminhada para o supremo tribunal. Seus problemas continuavam:

- Eu vim para a entrevista de trabalho.

- Sinto muito, estamos buscando um camelo para a vaga.

- Eu sou um camelo.

- Aos olhos de um leigo sim, mas aqui na empresa tratamos de distinguir bem um camelo de um dromedário.

- Eu sou um camelo com uma corcova.

- Sim, e o homem é um macaco sem pelo.

- Olha, meu pai é camelo, minha mãe é camelo, eu só posso ser camelo.

- Se seu pai engoliu essa história ...

(levou um murro)

E foi então que o jovem camelo teve que se resignar a viver com o RG de um dromedário e ter um trabalho de dromedário enquanto a justiça não fazia cargo de seu caso. E chegou então o trágico dia que um fiscal apareceu na empresa onde ele trabalhava para uma inspeção.

- Tem uma coisa errada aqui.- Afirmou o fiscal.

- Claro que tem. - Disse o camelo

- Seu RG é de dromedário, mas você é um camelo. Um camelo com apenas uma corcova, mas ainda assim um camelo.

- Sem dúvida alguma.

- O senhor me acompanhe por favor.

E foi quando o pobre camelo foi preso por falsidade ideológica.



Moral da história: Cara, a tendência é que você se foda sempre.


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21 de agosto de 2009

 

Coisas bonitas que eu desenho no paint








Tem que clicar em cima para ampliar



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20 de agosto de 2009

 

O meu nome é Hussein!





A cabeça da gente é algo curioso, né!? Vocês já devem ter ouvido falar de memórias falsas, pra quem não conhece, eu dou uma explicada rápida: sabe aquele fato da sua infância que você lembra com toda a claridade do mundo? Pois bem, é quase seguro que isso nunca tenha ocorrido realmente, ou pelo menos, não da maneira que você lembra.

Eu surpreendo muita gente quando digo que tenho memória de coisas que me aconteceram aos três anos de idade. Lembro, por exemplo, que eu não sabia fazer o "3" com os dedos (é realmente difícil pra uma criança), então quando me perguntavam minha idade eu tentava mostrar apenas três dedos, agarrando o mindinho com o polegar e não conseguia. Lembro de fazer uma força descomunal pra conseguir fazer o 3, mas desejando profundamente já ter completado os 4 anos porque era mais fácil de fazer com a mão, bastava esconder o polegar. Inclusive uma vez bati numa menina que estava rindo dessa minha incapacidade, e eu sei quem era a menina, sei até hoje seu nome e já a busquei no orkut pra pedir desculpas, mas não a encontrei. É a Daniele, irmã do Reginaldo de Volta Redonda, também conhecida como Daniele Guaiamum, porque tinha cara de carangueijo do mangue, e fui eu que apelidei.

Pena que pouco disso que relatei tem algo de verídico, mas eu lembro claramente, assim como muitas outras coisas da mesma época. Algumas eu pude confirmar com minha mãe que foram verdade, como o dia que fui atacado da cabeça aos pés por um formigueiro, inclusive ela me apresentou depois ao homem que me ajudou nesse dia. Mas uma coisa é que tenha acontecido, outra é que tenha acontecido como eu lembro.

Daí eu dei essa volta toda pra trazer vocês até aqui e comentar uma memória falsa que eu quero recordar por toda a vida porque tenho muito carinho por ela. E essa eu não tive que confirmar com ninguém se era real, porque o bom senso já me fez esse favor.

Em 1989 tivemos as eleições presidenciais, talvez as mais divertidas de toda a história, com candidatos como Silvio Santos, Marronzinho, Enéias, e até o Gabeira, que na época não era o Gabeira tão admirado de hoje e sim o detentor de um slogan ridículo como "Os bichos não votam, votem por eles, votem em mim" acompanhado de uma vinheta com bichinhos da floresta repetindo "Gabeira! Gabeira! Gabeira presidente do Brasil!" (Isso não é memória falsa, tomara que não!)

Daí um ano depois, em 1990 tivemos a Guerra do Golfo, a do Bush pai. E então através da TV eu descobri que existia um país chamado Iraque e o presidente desse país era um tal de Saddam Hussein. Na cabeça daquele garoto que um ano antes havia visto como era uma campanha presidencial, não foi difícil criar a ilusão que era assim em todos os países do mundo, e que no Iraque havia algo semelhante a um Silvio Santos, um Gabeira, e que Sadam Hussei havia sido mais um dos candidatos com algum slogan esdrúxulo, um jingle tipo Lula-lá (saddam-dam?), e que havia sido eleito pelo povo depois de debates hilários na TV (os debates de 89 eram uma aula de humorismo, busquem no youtube). Tudo como aqui.

É aqui que entra a memória falsa: eu juro que vi com esses olhos que a terra há de comer o horário político do Iraque, e era como o nosso. Eu vi e ouvi. Aparecia o Saddam falando seus planos de governo detrás de uma bancada e depois aparecia um árabe e repetia o slogan que eu amei à primeira vista:

Vote no bom!
Vote no 100!
Vote no Saddam Hussein!

Ignoro se 100 era o número de chapa ou se era uma expressão, ou ambos. Até porque não sei se o número 100 tem o mesmo sentido para os árabes que para os ocidentais. O que sei é que em mais de uma ocasião esse slogan veio à minha cabeça e eu o repeti com gosto. Costumava usá-lo para designar tédio ou aborrecimento:

- Thiago, vai pra praia com a gente?

- Não.

- Vai ficar aí dormindo? Todo mundo vai pra praia.

- Não quero ir, quero dormir.

- Aff, em vez de aproveitar o sol.

- Ah, vai ô, me deixa em paz! Curte o sol você, vote no bom, vote no 100, vote no Saddam Hussein.


Claro, Saddam Hussei não foi eleito democraticamente, logo não precisou fazer campanha presidencial com jingles, e o que é mais óbvio: No Iraque não se fala português, logo esse slogan nunca existiu. Mas se ele quisesse recomeçar sua vida política no Brasil pelo menos já contaria com um ótimo slogan pra campanha. Não quis vir, deu no que deu: morreu, se fodeu.


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